Lisboa - Portugal

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Coletivo Lagoa

criação clara.b

cRUA

corpo

rua

Quando a criação emerge do quotidiano de um trabalho de pesquisa, algumas evidências se fazem ver. Trazendo a atmosfera cRua por dentro do festival Pedras 18 em Julho passado, reconhecemos que esta nova criatura (cRua) poderá acontecer numa múltipla performance. Dançando na rua semanalmente, e tomando a forma de um filme. 

A cRua vive na rua, se calhar passam dias e passam noites e ela continua ali, por entre praças, largos, ruelas. Segue dançando por Lisboa, sacudindo a poeira, ouvindo as conversas dos que passam, cheirando as histórias dos que ficam… co-existe com a vida de cada lugar, tem a sua forma de ser e estar, mas não vem ali fazer nada que não seja existir em estado de dança. Acho mesmo que isso é um filme, e que assim, pode viajar pelo mundo. Uma declaração de amor por Lisboa, com as feridas abertas.

Uma criação acompanhada pelo c.e.m – centro em movimento

Nota de intenção:

Da minha janela na Rua da Bombarda número 13/3º andar esquerdo, vê-se uma cidade em renovação. Neste momento contam-se 38 gruas, um número que está sempre a aumentar. Estamos por cima do Largo do Intendente, por trás da antiga Casa do Minho… e na continuação do Largo das Olarias. Uma rua que é um eixo importante nesta zona que cruza Mouraria, Intendente, Graça, Baixa… Em cada dia os olhos vão se enchendo de curiosidade… Como continuar a habitar esta zona da cidade? Onde estão as mulheres trabalhadoras do sexo com quem estivemos tantos anos a trabalhar no corpo, na vida? No ano de 2009 dançámos muito perto delas, na Casa do Minho que neste momento já 

não existe, foi vendida para um fundo imobiliário para ser capitalizada… Em 2013 dançámos outra versão, desde dentro do bar da Dadá, na Rua do Benformoso… neste momento o bar já não existe também… é um restaurante paquistanês como muitos outros que agora ocupam a metade da Rua… Onde está a Dadá que trabalhou ali uma vida inteira? Parece-nos evidente que esta mudança pede para virar gesto… desde a memória do corpo… e virar dança, no encontro do acontecimento artístico. Estamos em 2018, seguimos acompanhando e escutando com muita atenção as transformações que vem ocorrendo na cidade e no bairro e com a vida de algumas mulheres que continuamos a ver e a ouvir nesta longa caminhada. Como a cidade é sempre outra, toda vez que aparece uma urgência no corpo, nasce sempre um novo solo. Passaram-se cinco anos e estamos outra vez de frente para uma Lisboa nova cheia de contradições, de turistas, de novos ares, outra luz, outros sons, de velhos hábitos. E o corpo que resiste na urbe, pede para dançar! Que dança é essa que está a nascer agora? Que CRU é esse?

Notas de pesquisa: Lisboa está a transformar-se com uma velocidade vulcânica. Como continuar a amar Lisboa? O que pode ser o movimento da resistência num corpo que dança? Como continua a existir e a reverberar uma determinada potência de criação no corpo de um bailarino com a passagem do tempo?

Mariana Lemos

 

CRU traz o não cozinhado, o não preparado, o encontro com a nudez do encontro… cRua é o mesmo—mas um pouco diferente… já que traz essa escuta do qualquer, para lá do género, da camada social, da inscrição enquanto este ou aquele… cRua pergunta sobre a especificação de determinados seres-aconteceres que tendem a esquecer-se do movimento que os gera. Que ajuntamentos vão sendo estes que permitem a confusão entre trabalho e escravatura? Se pudéssemos sair um pouco para além da caminhada brilhante de Karl Marx e outros pensadores e trabalho pudesse ser considerado enquanto algo que se gera a partir do “comum”, algo que nutre as qualidades de ser-estar-fazer-com, como poderia ser confundido com o exercício de poder de uns sobre outros (escravatura)? Como a especificidade de seres isto ou aquilo poderia esquecer que és qualquer? Como seres “homem” ou”mulher” poderia designar o impacto que tens na co-criação de mundo? É como se cRua fosse um voltar atrás ao encontro do que não tem traz nem frente… antes ver-sentir-dançar os obstáculos que tapam a experiência de existir. Sofia Neuparth